Muitas mães de crianças com deficiência se qualificaram como técnicas de enfermagem para cuidar dos próprios filhos no home care e conseguiram ser contratadas pelas cooperativas responsáveis pelo atendimento, mesmo sendo quem mais entendia cada rotina e cada crise da criança foram retiradas das equipes por decisão empresarial. Juridicamente, pouco pode ser feito, já que cada empresa tem liberdade para organizar suas contratações. Mas o caso escancara uma questão maior: o cuidado ainda não é reconhecido como trabalho qualificado, mesmo quando exercido por profissionais formadas.
O peso do cuidado recai desproporcionalmente sobre as mulheres no Brasil. Segundo levantamento da VR Benefícios, feito com base em 33 mil empresas e citado pelo portal Ancora1 (abril de 2026), 70% dos atestados apresentados para acompanhamento de familiares em consultas médicas são de mulheres, dado que reforça a concentração do cuidado no gênero feminino.
No caso da maternidade atípica, o cenário é ainda mais grave. De acordo com o estudo "Cuidando de quem cuida", realizado pela Genial Care e também citado pelo Ancora1, 86% dos cuidadores de crianças com autismo no Brasil são mães, sendo que 68% delas afirmam não ter tempo para si mesmas.
Essa sobrecarga tem efeito direto na vida profissional dessas mulheres. Segundo pesquisa da Catho, plataforma de empregos, divulgada em maio de 2025 e noticiada pelo Meio & Mensagem, 60% das mães entrevistadas no Brasil estão fora do mercado de trabalho, número que, apesar de ainda alto, representa uma queda de 8% em relação a 2024. Entre as que seguem empregadas, o levantamento aponta que quase 60% ocupam cargos operacionais, e apenas 15% chegam a posições de gestão ou liderança.
Já uma reportagem do BemParaná (abril de 2026) destaca a fala de Luz María Romero, gestora do Instituto Buko Kaesemodel, sobre a rigidez do mercado brasileiro diante da maternidade atípica: "O que observamos é que, ao não oferecer condições de suporte, as empresas acabam excluindo não apenas o profissional com deficiência, mas também a família que o sustenta", afirma Romero.
O impasse em torno do BPC (Benefício de Prestação Continuada) ilustra bem o problema. O benefício é destinado à pessoa com deficiência, mas seu direito depende da renda de toda a família. Segundo o escritório Ozon & Tommasi Advocacia, especializado em direito previdenciário, "a regra geral é que, se o beneficiário passar a exercer atividade remunerada que aumente a renda familiar per capita além do limite de 1/4 do salário mínimo, o benefício pode ser suspenso".
Isso significa, na prática, que quando a mãe consegue um emprego formal ou formaliza um negócio, a renda da família pode ultrapassar o limite e o filho corre o risco de perder o BPC. Há, no entanto, uma proteção pouco conhecida: conforme o mesmo escritório explica, se a atividade remunerada terminar em até dois anos, o benefício pode ser reativado mediante solicitação, sem necessidade de um novo pedido completo ao INSS.
Ainda assim, esse mecanismo de "rede de segurança" não resolve o problema de fundo: o receio de perder o benefício continua afastando muitas mães de oportunidades de trabalho formal e de empreendedorismo. Diante desse cenário, cresce o debate sobre a necessidade de o Estado tratar o cuidado como categoria de trabalho remunerável, permitindo que mães atípicas conciliem carteira assinada ou CNPJ com a manutenção dos direitos assistenciais de seus filhos. Essa é uma pauta que precisa entrar de vez no debate público, porque cuidar é trabalho, e trabalho deve ser remunerado e valorizado.
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